Cozida manhã de Outono... No horizonte, o fumo da neblina daquele raiar do galo matinal.
A velha, com meias pretas, que suavemente lhe tocam as partes reservadas, temperadas com a astúcia secular de invernos passados no recôndito da sua lareira, deambula graciosamente, em manobras rotineiras, com balde de lavagem na mão direita, couves na esquerda...
Nos currais, os coelhos - recebem com graciosidade a frescura verde... Mais à frente, por entre as portinholas seguidas, o abruto chocalhar dos pitos de feira, já despertos, que se agitam ainda mais, na sua sinfonia irritante de sons anímicos, com o aproximar da comida que parece sempre tardar...
Na última porta, sentença final de um grande calvário, mora a personagem desta prosa.
Nesse dia, passa por abstinência, que assim obriga a matança... É o porco de animal, cozedura ou assado, que motivo melhor para encher de gordura o bom bigode farfalhudo....
Horas passadas, e com sol por nascente, parece surgir alguns suspensórios no meio da vegetação... São os senhores que se preparam. Trazem, debaixo de braços, cuidadosamente enroladas em pano manchado, as várias facas de um ofício de artistas.
Preparam com rigor, o banco de deleite, manchado de carvão preto, fruto de usos passados... Na cozinha, as meninas de avental, cozem panelas de água, sobre o lume de lenha, no chão consumido...
De fora chegam grupos de gente, de idades várias, entre putos curiosos, aos reservados familiares, que nas suas palhotas de cesto, fazem transportar a broa de cozedura fresca, e o melhor das colheitas de vinho do Setembro recente.
Depois do trocar de comprimentos, tempo para anedotas várias... Riso generalizado, enquanto se forma a comitiva. Junta-se o melhor da frescura em cinco homens de corpo avantajado... O mais novo ainda carrega borbulhas várias, que de outra experiência parece necessitar...
Seguem trajecto pelo quintal vasto, por entre couves e tomatais devidamente estacados, carreiros corridos e alinhados, que no bagaço do pequeno almoço, serve de orientação à porta do aido.
Mais duas de treta corrida, enquanto se agrupam na porta... Combinam uma estratégia decorada. Dois entram com cordas em punho... No foucinho o fazem segurar... O animal parece ter muita genica... Talvez tenha passado num mês, a sua altura de matança...
No lombo de presunto, dois são o que o empurram, enquanto os restantes, pelas duas pontas da corda, o tentam encaminhar para o banco.
Coices em seco, o carreiro não os parece enganar, que de perdidos no quintal, só da força do bicho, o parece transmitir...
Chegam por fim ao alinhamento do banco, que sobre ele, o tentam deitar, por força de braços, o animal quase extasiado...
Força nas cordas, que de excesso de confiança, fica remetida a dois homens... Na retaguarda, outros dois abraçam as pernas, que em sofrido movimento lutam para o erguer...
Lá ao perto, as mulheres vão chegando com as panelas quentes e alguidares vários, em fila organizada, na sua ordem combinada...
O ancestral, desvenda, por entre o desenrolar dos panos vários, a faca da matança, que ajuíza a afinidade, e com ela tempera o gume e afia o desejo.
Suados de raiva pelos movimentos do animal, os jovens fazem descair os suspensórios, aglutinam raivas passadas, e juram vencer a batalha... Mas, para o cenário montado, a palha amontoada a um canto, faz escorregar um dos obreiros... A sua penca enfia-se sem hesitação por entre o rabo contorcido do animal.
Enquanto pestaneja a maleita, as cordas ficam pendentes com o espanto, e o animal sai desvairado do cenário... que de adivinha parecia premeditar o seu fado... Corre pela quinteira, derruba a comitiva de senhoras, e enche de pânico as restantes, que no seu desespero largam salpicos de água e louça, pela passagem rápida...
No trote dos cascos, corre pelo quintal, desvairado, levando o alinhamento, e a tomatada, que sem regras, parece o animal possuído... galga meio muro, e segue a destruição...
Lá longe, um dos homens lava a cara em água escaldada na tentativa de tirar o cheiro da ponta da penca... Queima-se, e mais inchado fica, que muita luxação já tinha da bebida...
Os restantes quatro seguem como necas a abanar, para o tentar desviar das plantações organizadas...
Já o bicho se encontrava mais calmo, regalando-se com os nabos que arranca em série do fundo da terra quando, com ares extasiados, chegam os heróis em banda dispersa. Tentam-no cercar... mas os olhos miúdos não se deixam consumir, e de arena se faz o recinto, pois de séries seguidas de fintas, os fazem todos aterrar por terra...
Enraivecidos, os homens reorganizam-se... Sentam-se numa sombra e contemplam o porco à distância. É servida meia côdea a cada um dos presentes, dois pasteis de bacalhau, e uma vintena de malgas de vinho - sob a forma de dois garrafões de tinto.
No cruzar de olhares, a relação criada entre quem não manda, e quem não quer ser mandado...
O sol curtia meia distância entre o amanhecer e o meio-dia. O grupo de valentes interrogava-se sobre a hora, que por altura, já devia ser de limpeza... E sonham com os chispes e dobradas bem cozidas... Pois, se de força era a besta capaz, bom paladar teria de trazer à mesa, por certeza!...
Nova meia hora passou até que, possuídos por uma sorna invulgar, a trupe de matadores se deixa adormecer na sobra da macieira seca...
Nem o gizado do barulho ensurdecedor da matilha de putos que se devertiam em redor do porco os fez acordar...
Na Eira, as mulheres preparam o almoço, enquanto trespassam novamente os paus de marmeleiro, ou "vira-tripas", pela água fresca, que de pó já se fazia notar as suas pontas...
No pasto longícuo, o chefe acorda, com a faca da matança cruzada sobre o peito, com o barulho de mais uma passagem do porco que chiava aguçado, pelo facto de transportar no lombo, um dos miúdos divertidos...
É o alerta geral, que na missão se fazem todos despertar...
Sem regra, seguem o encalço... mas rapidamente se cansam, pois longo parece ser o caminho que, nesta perseguição sem rumo, os fazem abandonar novamente o destino do dia...
Enlameados e humilhados, seguem afiando os bigodes, de reencontro ás mulheres...
Sentam-se refastelados nos bancos de madeira, enquanto são servidas couves e batatas cozidas, que de guarnição parecem eles contentes, pois de mais nada fora o preparo da refeição, a não ser do Porco que não fora morto, juz de carne que falta...
Mas a boa pinga depressa os remeteu ao esquecimento, e à sonolência... E depressa se sentaram em jogos de sueca seguidos por intervalos de sesta animada...
No fim a promessa, de que no termo da semana que começa, a vingança seria realizada... e de tripa lavada se iriam regalar as mulheres, e de rojões quentes se iriam saciar os homens...